| O Estado de S. Paulo - 30/03/2003
- Tradução de Alexandre Moschella
Arte e política devem sempre manter distância?
Brecht, Roth, Picasso e outros artistas participam
com suas obras de um debate que permanece inquietante
SEBASTIAN SMEE
The Guardian
LONDRES – No fim dos anos 40, no rastro
da catástrofe mais profundamente perturbadora do século
20, o dramaturgo comunista Bertolt Brecht voltou à sua
Alemanha natal e ofereceu este lamento retórico: “Que
tempos são estes em que uma conversa sobre árvores
é quase um crime, pois implica o silêncio sobre tantas
injustiças?” Hoje, Brecht e o tipo de insegurança
global que moldou sua visão da arte como um meio político
parecem retornar.
Em Nova York, Al Pacino fez sua parte como o gângster e
demagogo da peça alegórica de Brecht sobre a ascensão
de Hitler, A Resistível Ascensão de Arturo Ui. Embora
não faça uma conexão explícita, a
produção de Simon McBurney deixou entrever, segundo
interpretação de alguns, uma ligação
entre Arturo Ui e George Bush. Ela é certamente um alerta
contra as seduções da demagogia, e seu sinistro
aviso final faz soar um alarme contemporâneo: “A cadela
que o pariu está novamente no cio.” Além disso,
o mundo da arte viu a última edição da prestigiada
Documenta de Kassel transformada por seu curador convidado, Okwui
Enwezor, em fórum para a projeção de documentários
com inspiração política. Estes prevaleceram
sobre as formas de arte mais tradicionais, só incluídas
quando contribuíam para o tema geral – o inseguro,
perigoso e injusto estado do mundo hoje. A estratégia de
Enwezor foi criticada por alguns, mas a Documenta nunca havia
atraído tantos visitantes (mais de 650 mil) e muitos elogiaram
o curador por dar as costas ao beco sem saída da “arte
pela arte”.
O próprio Brecht, sem dúvida, teria gostado de ouvir
Enwezor falar sobre a redefinição radical da arte
que se seguiu ao fim da visão de mundo colonial. Ele poderia
também ter aplaudido a controversa referência feita
por Enwezor, em seu catálogo, aos ataques ao World Trade
Center como uma “vingança contra os valores do Ocidente”.
Mas tudo isso levanta uma questão mais ampla: quão
dispostos estamos a dar as boas-vindas à politização
da arte hoje? O que esperamos conseguir com isso? E realmente
queremos estar numa situação em que nos sentimos
compelidos a enxergar uma apreciação de árvores,
ou qualquer outro tipo de beleza, como um crime? “A política
é como uma pedra amarrada ao pescoço da literatura,
e vai afogá-la em menos de seis meses.” Este era
Stendhal, escrevendo no século 19, muito antes das catástrofes
do século 20, que, para alguns, mudaram para sempre a paisagem
moral e eliminaram a possibilidade de a arte existir desvinculada
da política (“Não pode haver poesia depois
de Auschwitz”, como disse Theodor Adorno).
Stendhal foi, contudo, o pai do romance realista, e talvez o escritor
mais engajado socialmente de sua época. Nesse aspecto,
pode-se considerá-lo uma espécie de precursor de
Brecht. Vale a pena lembrar também que, embora o mundo
ainda não tivesse visto Hitler, Stendhal escrevia no rastro
de Napoleão; pela primeira vez em séculos a Europa
havia sido envolvida em tal tumulto, tal insegurança.
Ainda assim, a opinião de Stendhal sobre política
era muito diferente da de Brecht. “A política no
meio de coisas que dizem respeito à imaginação”,
continuou ele, “é como um tiro de revólver
no meio de um concerto. O barulho é de romper os tímpanos,
mas mesmo assim carece de sentido. Não harmoniza com o
som de nenhum instrumento.” Hoje, não há dúvida
de que as pessoas no mundo artístico se empolgam com a
arte que abertamente exibe tendências políticas.
Ela reforça sua sensação de interferência
no mundo e faz com que se sintam menos periféricas, menos
redundantes. Mas pode-se argumentar, persuasivamente, que a vasta
maioria da arte de intenção política feita
no rico Ocidente é ela mesma um exercício de redundância.
Quase invariavelmente trata-se de pregar para os já convertidos,
pois a audiência da arte política – aquela
pequena minoria que se digna a ver uma exposição
politizada – normalmente já escolheu o lado. O prazer
de ver tais obras parece resultar da confirmação
das convicções. A indignação moral
recebe o selo de legitimidade da arte e assim é transportada
para o reino dos “sentimentos refinados”.
Lição – Em Casei
com Um Comunista, de Philip Roth, um dos personagens, um professor
de literatura, tenta convencer seu aluno de que há uma
diferença crucial entre arte e política. Onde a
arte é um reino de engajamento específico, a política
é uma arena de sedução geral. A política
e a literatura estão não só “numa relação
inversa”, diz ele, mas também numa relação
antagônica. Para a política, a literatura é
decadente, irrelevante, tola – algo que não faz sentido
e não deveria fazer. Por quê? Porque o impulso particularizante
é a literatura. “Quer se rebelar contra a sociedade?”,
conclui ele, com um floreio. “Vou lhe dizer como: escreva
bem.”
Ainda assim, todos sabemos que há horas em que, tragicamente,
não é viável separar arte e política.
Como, por exemplo, podemos levar em consideração
a arte que saiu dos campos de concentração, se não
num contexto moral e político? Ou o florescimento contemporâneo
da arte aborígene na Austrália, ou a arte e a poesia
que saem de zonas de guerra como Gaza e Cisjordânia? William
Dalrymple recentemente informou sobre um centro cultural palestino
aberto em Ramallah depois dos acordos de Oslo. “Foi muito
empolgante”, disse um artista, “mas os israelenses
logo perceberam a importância dessas exposições.
Alguns de nós foram presos, geralmente sob a acusação
de pintar usando as cores da bandeira palestina. Eles diziam:
‘Vocês podem pintar, mas não usem vermelho,
branco ou preto’.”
Diante de tal absurdo, a busca da arte e do significado se torna
indescritivelmente comovente – e, sim, profundamente política.
O festejado poeta árabe Mahmud Darwish disse a Dalrymple:
“Sei que eles são fortes e podem invadir e matar
qualquer um. Mas eles não podem romper ou ocupar minhas
palavras.” Darwish gostaria de não estar fazendo
arte política: “Numa situação diferente,
gostaria de desistir de minha poesia sobre a Palestina. Não
posso continuar a escrever sobre perdas e ocupação
para sempre. Quando meu país for libertado, também
o serei. Porém, até lá, nossa obrigação
é clara.”
Lamento – É claro que
Brecht, como Darwish, emitia um lamento ao fazer a pergunta com
a qual comecei: “Que tempos são esses em que uma
conversa sobre árvores é quase um crime?”
Da mesma maneira, sempre que os escritores sul-africanos que viveram
no apartheid, como J.M. Coetzee e Andre Brink, transformaram a
política no assunto explícito ou mesmo implícito
de seus textos, normalmente o fizeram com um tom elegíaco,
um ar de lamento, como se este não fosse seu verdadeiro
desejo.
Em 1998, quando lhe perguntaram qual era a responsabilidade social
do artista, o sul-africano William Kentridge respondeu: “Não
acho que exista uma responsabilidade social do artista. Penso
que sua responsabilidade é trabalhar o melhor possível
e ir o mais longe possível com aquilo que está fazendo.
Então, acredito que a natureza do que emergirá será
muito mais complexa.” A frase é surpreendente, dado
que o prestígio internacional do homem que a proferiu apóia-se,
em grande parte, em seu engajamento nos temas da vida sul-africana
recente. Kentridge fala com desenvoltura sobre política
e sua arte foi influenciada pelo teatro de Brecht, os expressionistas
alemães e o cinema soviético. Assim, mesmo que não
compremos a retórica do professor de Roth em Casei com
Um Comunista, está ficando claro que, de certo modo, o
impulso artístico e o impulso político são
sentidos pelos próprios artistas como inerentemente conflitantes.
O contraste entre os dois maiores pintores do século 20,
Matisse e Picasso, torna-se iluminador aqui. Matisse foi freqüentemente
ridicularizado por sua posição apolítica,
por contentar-se com uma arte de brilho e beleza, apesar de ter
vivido num período que assistiu a alguns dos piores horrores
da História. Sua atitude é um contraste total e
fascinante com a história de envolvimento político
de Picasso.
Antes de Guernica, seu famoso protesto pictórico contra
a Guerra Civil espanhola, Picasso também era bastante apolítico.
Mas, em 1945, havia se tornado garoto-propaganda do Partido Comunista
francês, organização altamente conformista
que operava sob os olhos vigilantes da União Soviética
de Stalin. Picasso fez vista grossa para os infames julgamentos-espetáculos
de Stalin, os quais ele de maneira nenhuma ignorava. “A
pintura não é afinal a coisa mais importante, e
é melhor se enganar nela do que sobre a revolução”,
disse ele.
A história desse período da vida de Picasso –
longe de seu melhor em termos artísticos – certamente
contém uma lição útil. Assim como
os milhares de intelectuais e artistas que apoiaram Stalin, mesmo
que fosse com a melhor das intenções, foram mostrados
como tolos da pior espécie quando o horror do stalinismo
se tornou evidente, a arte que voluntariamente se transforma numa
ferramenta política acaba inevitavelmente parecendo tola
e prejudicada. Ao lado da atitude de Picasso, a abordagem de Matisse
começa a parecer mais madura e realista.
Em nossa atual crise global, é fácil demais seduzir-se
pela idéia de que a arte, para ser relevante, precisa tratar
da situação global; precisa ser didática,
edificante e moralmente apelativa. Mas talvez a arte seja mais
“relevante” quando sua relevância é mais
facilmente questionada? “É extremamente importante”,
escreveu Robert Rauschenberg, “que a arte permaneça
absolutamente injustificável”.
É claro que grandes obras de arte surgirão respondendo
diretamente aos eventos determinantes de nossa era repleta de
angústia. Um compositor digno de nota, o americano John
Adams, já escreveu uma peça de música respondendo
ao 11 de setembro. A música, além de funcionar como
uma espécie de memorial sonoro dedicado aos que morreram,
é uma tentativa de trazer de volta um senso de realidade
àquele evento terrível. Ela usa sons eletrônicos
e a gravação de uma conversa por telefone celular
entre um dos passageiros seqüestrados e um ente querido.
“Vejo água e prédios” são as
palavras que Adams escolheu, e há algo ao mesmo tempo concreto
e transcendente nessa afirmação simples, quase banal.
Não é retórica. E não é política.
A arte que tenta processar a tragédia ou a perda –
seja em escala pessoal, nacional ou mesmo global – apenas
faz o que a arte sempre fez, e com um grande propósito.
Mas talvez seja a evocação poética daquela
perda, a “superação”, que a torne arte
(valendo a pena por isso) – e não o fato de que ela
poderia tratar do terrorismo ou da luta pela soberania da Cisjordânia.
“A arte”, escreveu Jean Dubuffet, “não
se deita nas camas que são preparadas para ela.”
Os políticos, por sua vez, estão sempre tentando
preparar a cama para que as pessoas se deitem. Onde a arte é
uma transação que aprofunda, propiciando riqueza
– e, como disse Kentridge, complicações –,
a política reduz, achata e esvazia, para melhor controlar.
Evidentemente, a arte não existe e não pode existir
isolada. Mas ela tampouco deve ser reduzida ao papel de um meio
para um fim – a armadilha na qual a maior parte da arte
política acaba caindo. Se uma “conversa sobre árvores”
em tempos de grande incerteza política é “quase
um crime”, como diria Brecht, talvez seja possível
concordar com isso, mas respondendo, no mesmo instante, com a
frase de Edgar Degas: “Comete-se uma obra de arte da mesma
maneira que se comete um crime.” Se falar sobre árvores
é criminoso, então a arte, qualquer que seja a situação,
precisa continuar a violar a lei.
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