| GFA
2000
Artigo escrito para a revista Violão Intercâmbio
por Alexandre Moschella sobre o Festival e Concurso Internacional
da Guitar Foundation of America (GFA) em outubro de 2000
A situação do violão no
Brasil é paradoxal. Podemos dizer que, ao mesmo tempo,
estamos próximos e distantes da glória. Próximos
porque não faltam aqui grandes artistas e grandes ativistas
da música, capazes de dar recitais de primeiro nível
e ainda encontrar tempo para o trabalho heróico de organizar
séries de concertos, festivais e concursos. Distantes porque,
entre um festival e outro, sempre organizado a duras penas, os
artistas ficam à deriva, sem mercado de trabalho, sem perspectiva
de conquistar uma posição que lhes garanta estabilidade
e, principalmente, satisfação profissional. O resultado
invariável: a fuga para o exterior.
Em outubro passado, alguns fugitivos se reuniram
em San Antonio, cidade histórica no sul do estado norte-americano
do Texas, para uma bela celebração musical. Fenômeno
curioso. O que se esperava no festival e no concurso da Guitar
Foundation of America (GFA) era uma profusão de violonistas
falando inglês. Mas grande parte do que se ouviu - nos intervalos
de recitais, master-classes e nas conversas nas mesas de bar -
foi falado em português. Dentre os norte-americanos, mexicanos
e visitantes de outros países, era notável a presença
brasileira. Participando do concurso, havia quatro brasileiros
- rivalizados, em número, apenas pelos concorrentes dos
Estados Unidos e do México, a poucos quilômetros
dali. Na série de concertos, havia o Duo Assad (a apresentação
mais concorrida e aplaudida de todo o evento); havia Paul Galbraith,
escocês que mora em São Paulo e carrega orgulhosamente
a bandeira do Quarteto Brasileiro de Violões; havia o inglês
Nigel North, que já veio algumas vezes ao Brasil e fala
português; e havia Roland Dyens, que também fala
português e causou alvoroço com seu arranjo de Berimbau,
de Baden Powell. Conversando depois de seu recital, Dyens resumiu
o espírito que essa turma singular deixa entrever: "Sou
francês. Mas sou brasileiro de coração."
Esse ambiente não poderia ser mais propício
para se pensar em algumas comparações com o Brasil.
A dimensão do festival da GFA é impressionante.
Neste ano, foram 14 recitais (dois com orquestra), cinco master-classes,
11 palestras, três fases de um concurso com mais de 70 concorrentes
de todas as partes do mundo (veja abaixo) e uma feira com 40 expositores,
entre luthiers, fabricantes de cordas e editoras. Com todo esse
tamanho, uma das primeiras reações é pensar
na invejável riqueza daquele país, no grande número
de boas universidades, no enorme mercado de trabalho e, enfim,
na sorte que têm os músicos de lá, comparados
com os daqui. Este é o primeiro engano. O festival da GFA
só pode existir graças ao esforço pessoal
de meia dúzia de heróis, que se desdobram para conseguir
patrocinadores, contam com a ajuda de última hora das produtoras
dos grandes artistas e penam para organizar, sozinhos, toda a
agenda do evento.
Ou seja: o festival, guardadas as devidas proporções,
é feito "na raça", como no Brasil. A diferença
é que há mais de 20 patrocinadores, entre fabricantes
de cordas, prefeituras, editoras, linhas aéreas e até
jornais. Todos conquistados com muito esforço, um a um.
Claro que, por trás de todo esse empreendimento, há
a Guitar Foundation, agremiação nacional sempre
em atividade, que não deixa o processo se desacelerar e
estagnar, como acontece muitas vezes por aqui. A GFA não
perde tempo e já está organizando o festival de
2001, que acontecerá em La Jolla, Califórnia.
Mas, em essência, o que diferencia o festival
norte-americano dos eventos brasileiros não é a
qualidade, e sim a quantidade. Também nos Estados Unidos,
os violonistas ainda não consagrados penam, entre um festival
e outro, para conseguir se apresentar e se fixar no mercado. Também
nos EUA, há a insistente esperança de que o festival
incentive a criação de um mercado ampliado e mais
justo, multiplicando as chances de performance e atuação
didática dos profissionais e estudantes. Quase todos os
elementos que possibilitam a realização de um festival/concurso
de grandes proporções existem no Brasil: espaços,
vontade de organização, pessoal qualificado, patrocinadores
(ainda que poucos). Uma visita à GFA mostra não
só como um festival pode ser bem-sucedido, mas também
como estamos próximos de poder realizar algo parecido.
Com tanto Brasil acontecendo em San Antonio neste ano, não
é exagero afirmar que nosso país um dia poderia
atrair gente do mundo todo, concertistas mas também estudantes,
para um acontecimento internacional. Em português.
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