| O Estado de S. Paulo - 01/08/2004
- Tradução de Alexandre Moschella
Vargas Llosa: razões contra a exceção cultural
Escritor defende que cercear o mercado de
bens culturais porque o público não sabe escolher
é confundir o efeito com a causa, é como “liquidar
o mensagueiro porque traz notícias que nos desgostam”
MARIO VARGAS LLOSA
São dois os argumentos principais usados
pelos defensores da exceção cultural, a saber:
1) Os bens e produtos culturais são diferentes dos outros
bens e produtos industriais e comerciais e por isso não
podem ser entregues, como estes últimos, às forças
do mercado – à lei da oferta e da demanda –,
porque, se forem, os produtos bastardos, inautênticos, toscos
e vulgares acabarão tomando o lugar, na opinião
pública (ou seja, entre os consumidores), dos mais valiosos
e originais, as autênticas criações artísticas.
O resultado seria o empobrecimento e a degradação
dos valores estéticos na coletividade. Dependendo só
do mercado, gêneros como a poesia, o teatro, a dança,
etc., poderiam desaparecer. Portanto, os produtos culturais precisam
ser excetuados do crasso interesse comercial do mercado e submetidos
a um regime especial.
2) Os produtos culturais devem ser objeto de um cuidado especial
por parte do Estado, pois deles depende, de maneira primordial,
a identidade de um povo, ou seja, sua alma, seu espírito,
aquilo que o singulariza entre os outros e constitui o denominador
comum entre seus cidadãos: seus padrões estéticos,
sua identificação com uma tradição
e um modo de ser, sentir, crer, sonhar, em suma o aglutinante
moral, intelectual e espiritual da sociedade. Entregue ao mercantilismo
ganancioso e amoral, esta identidade cultural da nação
se veria fatalmente manchada, deteriorada pela invasão
de produtos culturais forasteiros – pseudoculturais, melhor
dizendo – impostos por meio da publicidade e com toda a
prepotência das transnacionais, que, mais cedo ou mais tarde,
perpetrariam uma verdadeira colonização do país,
destruindo sua identidade e substituindo-a pela do colonizador.
Se um país quer conservar sua alma e não se transformar
num zumbi, deve defender sua identidade protegendo seus produtos
culturais da concorrência e da aniquiladora globalização.
Não ponho em dúvida as boas intenções
dos políticos que, com variantes mais de forma que de fundo,
esgrimem estes argumentos em favor da exceção cultural,
mas digo que, se os aceitamos e levamos a lógica neles
implícita à sua conclusão natural, estamos
afirmando que a cultura e a liberdade são incompatíveis
e que a única maneira de garantir a um país uma
vida cultural rica, autêntica e da qual todos os cidadãos
participem é ressuscitar o despotismo ilustrado e praticar
a doutrina mais letal para a liberdade de um povo: o nacionalismo
cultural.
Note-se quão profundamente antidemocrático é
o primeiro destes argumentos. Se se respeita a liberdade dos homens
e mulheres comuns e corriqueiros, a cultura está perdida,
porque, na hora de escolher entre os bens culturais, aqueles escolhem
sempre a porcaria: ler O Código Da Vinci, de Don Brown,
em vez de Cervantes, e ir assistir a Homem-Aranha em vez de A
Má Educação. Portanto, como o público
em geral é tão pouco sutil e rigoroso na hora de
escolher os livros, filmes, espetáculos, e seus gostos
em matéria de
estética são execráveis, é preciso
orientá-lo na boa direção, impondo-lhe, de
uma maneira discreta e que não pareça abusiva, a
boa escolha. Como? Penalizando os maus produtos artísticos
com impostos e tarifas que os encareçam, por exemplo, ou
fixando quotas, subsídios e rendas que privilegiem as genuínas
criações e releguem as medíocres ou nulas.
E quem serão os encarregados de levar a cabo esta delicadíssima
diferenciação entre a arte integérrima e
o lixo? Os burocratas? Os parlamentos? Comissões de artistas
exímios designadas pelos ministérios? O despotismo
ilustrado versão século 21, portanto.
O outro argumento traz conseqüências igualmente nefastas.
A simples idéia de identidade cultural de um país,
de uma nação, além de ser uma ficção
confusa, leva inevitavelmente à justificação
da censura, ao dirigismo cultural e à subordinação
da vida intelectual e artística a uma doutrina política:
o nacionalismo. A cultura de um país como a França
ou a Espanha não pode se resumir a um cânone ou tábua
de valores e idéias das quais todas as obras artísticas
e intelectuais produzidas em seu seio fossem expressão
e sustentação coerente. Pelo contrário, a
riqueza cultural destes dois países está em sua
diversidade contraditória, na existência neles de
tradições, correntes e criadores e pensadores renhidos
entre si, que representam visões do mundo e da arte que
repelem umas às outras, e no universalismo que essas obras
alcançaram em seus momentos mais altos graças ao
fato de ter sido concebidas sem as amarras de um horizonte local
ou nacional e – como acontece com o Quixote, Baudelaire,
com Tirant lo Blanc, com Proust, com El Greco e Goya e Velázquez
e La Tour, Toulouse Lautrec, Matisse, Gauguin e tantos outros
– ao fato de ter sido por isso mesmo entronizadas como representações
estéticas onde era possível reconhecer os seres
humanos de qualquer tempo ou cultura.
Estas obras não teriam sido possíveis dentro das
fronteiras nacionais pressupostas pela noção aberrante
de uma identidade cultural coletiva. Nem sequer a língua
pode ser considerada um campo de concentração para
a vida cultural, porque, por sorte – e, graças à
globalização, este processo irá se ampliando
cada vez mais –, quase todas as línguas ultrapassam
as fronteiras ou várias línguas convivem dentro
de uma nação, e há entre artistas uma mobilidade
que lhes permite cada vez mais escolher sua própria tradição
e seu próprio país espiritual, de modo que pretender
transformar uma língua num sinal de identidade cultural
de um povo também é outro artifício ideológico.
Se a própria idéia de nação –
um conceito oitocentista que perdeu a estabilidade e aparece cada
vez mais diluído à medida que as nações
vão se integrando em grandes blocos – resulta em
nossos dias bastante relativa, a de uma cultura que expressaria
a essência, a verdade anímica, metafísica,
de um país é uma fraude de índole política
que, na verdade, tem pouco a ver com a verdadeira cultura e muito,
em compensação, com aquele “espírito
da tribo” que, segundo Popper, é o grande obstáculo
para que se alcance a modernidade.
A França e a Espanha já avançaram demais
no que diz respeito à cultura democrática para que
seus cidadãos, que às vezes se deixam seduzir pela
demagogia e o chauvinismo escondidos nas ilusões da exceção
cultural, aceitem o que seriam as conseqüências práticas
de semelhante proposta: uma vida cultural regida por burocratas
ou artistas e escritores instrumentais, na qual todo o estrangeiro
seria considerado um desvalor e todo o nacional, o valor estético
supremo. De modo que, em termos práticos, provavelmente
todo o alvoroço que nestes dois países rodeia a
política da exceção cultural só desembocará
em alguns artistas recebendo os subsídios que pedirem e
em burocratas, sob o pretexto de proteger os bens culturais, perpetrando
mais desperdícios que os conhecidos. Pouca coisa, no fim
das contas, se toda a exceção cultural não
passar disso, e em ambos os países se respeitar a liberdade,
o Estado não se meter a substituir os consumidores na hora
de escolher os produtos culturais e estes continuarem submetidos
ao jogo da oferta e da demanda com as mínimas interferências
possíveis.
É verdade que os produtos culturais são diferentes
dos outros. Mas o são porque, diferentemente de um refrigerante
ou uma geladeira, em vez de tomar espaço de seus concorrentes
no mercado, lhes abrem a porta, os promovem. Uma obra de teatro,
um livro, um pintor que têm êxito são a melhor
propaganda para a arte dramática, a literatura e a pintura
e criam curiosidades e apetites – devoções
– que beneficiam os outros artistas e escritores. O mercado
não determina a qualidade, e sim a popularidade de um produto,
e já sabemos que nem sempre ambas as coisas coincidem,
embora às vezes sim. O que o mercado mostra é o
estado cultural de um país, o que o homem e a mulher comuns
preferem, e o que rejeitam, no exercício de um direito
que nenhum governo democrático pode refutar nem cercear.
Querer acabar com o mercado dos bens culturais porque o público
não sabe escolher é confundir o efeito com a causa,
liquidar o mensageiro porque traz notícias que nos desgostam.
É claro que seria preferível que os consumidores
às vezes tivessem um gosto melhor na hora de escolher um
livro, um espetáculo, um filme, um concerto, e que dessem
à cultura uma presença maior em suas vidas. Um governo
pode fazer algo a respeito? Muitíssimo. É a educação,
não o subsídio, que pode criar um público
mais culto. Mas não só os professores ensinam a
ler, ouvir boa música, discriminar entre o que é
arte e o que é caricatura. Também as famílias,
os meios de comunicação, o entorno social em que
cada cidadão se forma. E sem dúvida a preservação
do patrimônio é uma responsabilidade central do Estado.
Porém, inclusive neste campo, é indispensável
que os governos envolvam a sociedade civil, mediante políticas
tributárias que estimulem o mecenato e a ação
cultural. A maioria, não só os funcionários,
deve decidir para onde canalizar os recursos públicos e
privados para promover a cultura. Mas a obrigação
primordial de um governo neste âmbito é criar condições
que estimulem o desenvolvimento e a criatividade culturais, e
a primeira delas é a liberdade, no mais amplo sentido da
palavra.
Liberdade não apenas de opinar e criar sem interferências
nem censuras, mas também de abrir as portas e janelas para
que todos os produtos culturais do mundo circulem livremente,
porque a cultura de verdade nunca é nacional, e sim universal,
e as culturas, para sê-lo, precisam estar continuamente
em cotejo, luta e mestiçagem com as outras culturas do
mundo. Esta é a única maneira de elas se renovarem
sem cessar. A idéia de “proteger” a cultura
já é perigosa. As culturas se defendem sozinhas,
não precisam dos funcionários para isso, por mais
que estes sejam cultos e bem-intencionados.
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