A principal razão prática que
me levou a adotar a postura foi a liberação do braço
direito. Na posição tradicional, o braço
direito do instrumentista permanece, na maior parte do tempo,
apoiado sobre o corpo do violão - o que pode ser um conforto,
mas também pode limitar a quantidade e o alcance dos movimentos
possíveis. Liberando-se o braço direito, pode-se
obter uma gama maior de movimentos. O impulso para a produção
do som no violão não mais se limita ao antebraço
e à mão. O som passa a resultar da força,
do peso e dos movimentos do braço inteiro, com a participação
do ombro e do tronco. Na verdade, o som passa a resultar de uma
interação que envolve o corpo inteiro, uma vez que
não existe mais nenhum obstáculo físico entre
o corpo e o instrumento.
Sem dúvida é possível obter,
na postura tradicional, uma excelente interação
entre o corpo e o instrumento. O objetivo da nova postura é
apenas ampliar as possibilidades dessa interação.
Mas qual seria a utilidade desta liberdade de
movimentos? Em resumo, ela passou a ser necessária quando,
inspirado por Galbraith e seu mentor musical, o pianista, regente
e filósofo grego George Hadjinikos, abracei o seguinte
fundamento: o som não existe sem movimento. Para que um
som seja acusticamente produzido, é preciso haver movimento.
E quando este movimento pode ser produzido com a máxima
liberdade, o som também é favorecido.
Esta idéia do movimento anterior ao som
não é apenas ergonômica. É uma idéia
profundamente musical. Basta imaginar um regente: ele tem total
liberdade para movimentar os braços e o corpo, transmitindo
organicamente o andamento, o ritmo, a expressividade de determinada
peça musical. Nada limita sua capacidade de expressão.
É claro que não seria possível
um instrumentista imitar exatamente os movimentos de um regente.
Ele precisa ocupar-se interagindo mecanicamente com seu instrumento
para produzir a música. Mas a maior liberdade de movimento
dos braços sem dúvida ajuda o intérprete
a transmitir, para seu instrumento, os impulsos necessários
à expressão de suas idéias musicais.
O futebol pode ilustrar a importância do
movimento anterior à produção do som. Imagine
um jogador que vai bater um pênalti. Ele está longe
da bola, não está fisicamente ligado a ela. Antes
de chutar, ele concebe seu objetivo: levar a bola a determinado
espaço do gol, impulsionando-a com determinada velocidade
e efeito. Quando o jogador chuta a bola, seu movimento já
foi planejado. E a bola obedecerá a este plano. Também
na música, o som deve ser algo resultante de uma intenção.
E esta intenção é a intenção
do movimento.
Galbraith resume esta concepção
fundamental: "É como num jogo: não é
a bola que interessa, e sim a direção que você
quer dar a ela.”
Foram ensinamentos como este que me fizeram adotar
a nova postura. Seu grande objetivo é evitar que o instrumento
limite a relação essencial entre movimento e som.
Liberdade ao movimento!
II - Retoques finais
Iniciei as experiências com a nova postura
apoiando o violão sobre as coxas, na vertical. O braço
direito foi imediatamente beneficiado pela nova liberdade. No
entanto, apoiado sobre as pernas, o violão ficava muito
alto - e o braço esquerdo sofria. Seria realmente necessário
um espigão para ajustar a altura do instrumento às
necessidades do corpo.
Assim, uma vez decidida a postura, foi preciso
providenciar um equipamento que atendesse às expectativas.
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