| Uma
visão interior
Artigo escrito para a revista Violão Intercâmbio
por Alexandre Moschella na ocasião da morte do compositor
espanhol Joaquín Rodrigo, em 6 de julho de 1999
"Eu só queria que fosse bom. Que
desse prazer." Foi com frases simples como essa que Joaquín
Rodrigo, morto em 6 de julho, aos 97 anos, explicou ao público
o que sentia e desejava ao escrever uma das obras mais ouvidas
e festejadas da história da música, o Concerto de
Aranjuez. E foi com essa mesma modéstia que o compositor
espanhol, acusado por muitos de renegar as linguagens "modernas"
em nome do conservadorismo e da "simplicidade", se impôs
ao conturbado século XX com um estilo altamente pessoal,
unindo o riquíssimo folclore de seu país às
refinadas técnicas de composição e instrumentação
herdadas de Granados, Falla e outros mestres e de seu grande professor
Paul Dukas.
No lugar de devaneios estéticos e filosóficos
tão comuns em nossa época, Rodrigo gostava de explicar
sua inspiração afirmando que, graças à
cegueira que o acompanhou desde os três anos de idade, enxergava
seu mundo interior. "A perda da visão me levou à
música", dizia ele. "As pessoas cegas são
mais felizes, talvez por causa deste rico mundo que permite os
vôos da imaginação."
Cinco anos depois de perder a visão, resultado
de uma epidemia de difteria, Rodrigo iniciou seus estudos musicais
com o piano e o violino. Aos 16 anos, já estudava harmonia
e composição no Conservatório de Valência,
com mestres como Antich, Gomá e López Chavarri.
Desde o começo, Rodrigo escreveu todas as suas peças
em Braille, ditando-as depois a um copista. Em 1927, seguindo
o exemplo de seus predecessores Albéniz, Granados, Falla
e Turina, Rodrigo mudou-se para Paris, onde estudou com Dukas.
Ele logo se tornou conhecido como compositor e pianista, tornando-se
amigo de Falla, Honegger, Milhaud, Ravel e outras celebridades
da época.
Aranjuez na Lua
A vida na França e posteriormente na Alemanha
tornou-se difícil para Rodrigo, que perdeu sua bolsa de
estudos com a eclosão da Guerra Civil Espanhola. Ele voltou
a seu país com o fim da guerra, em 1939, levando na bagagem
o manuscrito do Concerto de Aranjuez, estreado no ano seguinte.
A obra, segundo o próprio compositor uma visita "aos
tempos passados, à beleza dos jardins de Aranjuez, suas
fontes, árvores e pássaros", representou um
dos grandes impulsos que levaram o violão, freqüentemente
considerado um instrumento "folclórico", de volta
à cena musical.
Embora avisando que não se tratava de
música programática, Rodrigo tentou inspirar os
intérpretes do Concerto: "Eu queria indicar uma época
específica, o final do século 18 e o início
do 19, as cortes de Carlos IV e Fernando VII, uma atmosfera de
majas, toureiros, e sons espanhóis regressos da América."
Rodrigo foi autor de uma vasta obra que inclui
onze concertos para diversos instrumentos, mais de 60 canções,
peças para orquestra e para instrumentos solo, incluindo
um dos mais ricos repertórios para violão (pelo
menos 27 peças), além de música para teatro
e cinema. Mas foi o Concerto de Aranjuez que o consagrou mundialmente,
a ponto de o próprio Rodrigo ter reclamado que esta peça
se tornou "uma grande árvore que não deixa
que se enxergue o resto de minha música".
O Concerto teve até hoje mais de 50 gravações
- e, curiosamente, a mais vendida é aquela do violonista
flamenco Paco de Lucía. Foi mais ouvido que o popularíssimo
Amor Brujo, de Manuel de Falla. No ano passado, ficou atrás
apenas de "Maria", do cantor pop Rick Martin, e do mega-sucesso
"Macarena" nas paradas espanholas. E foi até
levado para a Lua, em 1969, para inspirar o astronauta americano
Neil Armstrong.
Rodrigo nunca abandonou o estilo consagrado pelo
Concerto e outras obras-primas, estilo que ele mesmo chamava de
"neocasticismo". Em suas composições,
a originalidade da inspiração musical é acompanhada
pela devoção aos valores fundamentais da tradição
tonal, a preferência pelas formas clássicas e o uso
de um vasto material folclórico tanto geograficamente,
nas diversas regiões da Espanha, quanto historicamente,
nas diversas épocas. Para o poeta Gerardo Diego, Rodrigo
compôs "paisagens acústicas". Yehudi Menuhin
gostava de comparar Rodrigo ao húngaro Béla Bartók,
afirmando que os dois compositores deram voz universal a suas
culturas. Algo que lembra também Villa-Lobos e a cultura
brasileira.
"O que é belo
permanece"
O compositor se familiarizou com outras linguagens
contemporâneas, mas nunca deixou de reafirmar sua personalidade.
"Ele conhecia as tendências da vanguarda, mas seguiu
seu próprio caminho, sabendo que era criticado e às
vezes até insultado por músicos pretenciosos segundo
os quais a música que parece simples para os ouvidos é
‘música fácil´", disse recentemente
sua filha Cecilia. Rodrigo reagia às críticas denunciando
a falsa vanguarda representada pelos clichês patrióticos
que se espalharam pelo país. E desafiava as teorias com
um insistente otimismo: "Tudo o que é belo permanecerá."
Ao retornar à Espanha, Rodrigo desenvolveu
intensa carreira acadêmica. Foi, entre outras coisas, professor
de História da Música na Universidade de Madri,
diretor musical da Rádio Espanhola, crítico de vários
jornais e - mantendo a solidariedade a seus companheiros de inspiração
- diretor do Departamento de Artes da Organização
Nacional Espanhola para os Cegos. Acumulou mais prêmios
e honras que qualquer outro colega espanhol. Ao receber, em 1996,
o prêmio Principe de Asturias, a mais alta distinção
da Espanha, ele perguntou: "Por que eu?"
Rodrigo morreu em sua casa, em Madri, rodeado
por familiares comprometidos não só com entrevistas
à imprensa sobre sua celebridade, mas também com
a continuação de seu trabalho, centralizado na casa
Editorial Joaquín Rodrigo. O estrondoso sucesso comercial
do Concerto de Aranjuez ainda leva alguns críticos a falar
sobre a "facilidade" de sua música, mas esta
continuará certamente a ocupar lugar de destaque no cenário
internacional. Existem até mesmo peças que, embora
colocadas entre suas melhores pelos críticos e pelo compositor,
ainda não foram gravadas, como Ausencias de Dulcinea (1948,
para baixo, quatro sopranos e orquestra, sobre textos do Quixote
de Cervantes) e Musica para un Codice Salamantino (1982, para
baixo, coro misto e 11 instrumentos, sobre textos de São
Francisco de Assis, um dos últimos trabalhos de Rodrigo).
Aos críticos que insistirem em detectar a falta de linguagens
"vanguardistas" em sua música, Joaquín
Rodrigo deverá continuar respondendo como costumava: "Meu
copo pode ser pequeno. Mas é do meu próprio copo
que bebo." |