| Monsieur
Tricô
Monsieur Tricô é o primo tupiniquim do personagem
debussiano Monsieur Croche, um crítico ferino da música
e das artes. É revoltado com a hipocrisia, da qual não
é, contudo, totalmente isento. Às vezes é
cáustico, mas no fundo quer o bem da Humanidade. M. Tricô
usa este espaço para comentários, citações
e recomendações de audição e leitura
sobre violão, música e temas afins. Trata-se de
uma espécie de blog, embora ele odeie esta palavra, porque
está na moda.
Envie um e-mail para Monsieur Tricô:
mtrico@alexandremoschella.com
15 de janeiro
de 2007
Prostitutas e anjinhos
Encontre as diferenças:
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A Cafetina
G. van Honthorst (1590-1656) |
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Anjos com alaúde e violino
N. di Liberatore (ca.1425-1502) |
E então responda: sua música é
divina ou demoníaca?
O alaúde, o instrumento mais popular do Renascimento, serviu
para simbolizar essas duas esferas da existência: de um
lado, a fertilidade, a sensualidade, a perdição,
a prostituição, a imperfeição, a tragédia;
de outro, a bondade, a virtude, o Paraíso, a perfeição,
a salvação.
Qual tendência predomina em nosso meio dito "culto"?
Qual simbolismo predomina entre os praticantes da chamada Música
Erudita de hoje?
Qual dádiva você, músico, pretende conceder
a seu público: a redenção ou a tragédia?
10 de janeiro
de 2007
Técnica?
Arnold Schoenberg, que entendia a música além de
fazê-la, tem a nos dizer sobre técnica:
"Afirma-se que alguém pode ter técnica, mas
não criatividade. Está errado; ou a pessoa carece
também de técnica, ou tem também criatividade.
Você não tem técnica quando pode imitar algo
caprichosamente; é a técnica que tem você."
A. Schoenberg, Style and Idea
4 de janeiro
de 2007
Meias e perucas
Hoje descobri que o dono deste site também se formou em
Comunicação Social, além de Música.
Sempre me perguntei em que os estudos humanísticos contribuem
para a interpretação musical. Será que o
dono deste site é melhor intérprete de Bach por
ter estudado Semiótica? Qual a diferença entre uma
nota tocada por um bacharel em música e comunicação
e essa mesma nota tocada por alguém que toca "de ouvido"?
Os musicólogos exploram cada detalhe da vida dos grandes
compositores, em busca de chaves para o mistério de suas
obras. Mas que importa se um jovem gênio gostava ou não
de consumir álcool? Que importa a cor das meias de Beethoven?
Pois são esses detalhes escabrosos que alguns teóricos
insistem em citar.
DIREITO DE RESPOSTA:
Caro Monsieur Tricô,
Antes de mais nada, agradeço ao senhor e à Justiça
pela concessão deste espaço, a fim de que eu possa
me manifestar, enquanto pessoa humana diretamente atingida pela
estranha crítica acima.
Serei breve: a cor das meias de Beethoven pode não ter
uma relação muito direta com suas sinfonias. Mas
o que o senhor me diz das perucas da família Bach? Não
combinam com música barroca?
Atenciosamente,
Alexandre Moschella
2 de janeiro
de 2007
Anti-hipocrisia
Vejam a rara lucidez deste depoimento do compositor brasileiro
Marlos Nobre sobre linguagem e autenticidade:
"Muitos compositores jovens e não necessariamente
jovens de hoje, preocupados em produzir uma obra atual a todo
custo, fixaram-se exclusivamente em problemas técnicos
que tolheram sua imaginação criadora. Minha música
vai buscar sua inspiração e impulso na fonte do
meu subconciente, através de alusões, citações,
impressões do passado e do presente que me seduziram ao
longo do tempo e que de maneira quase sonambulística afloram
ao meu consciente e me incitam a criar.
"Sou um inventor de música, movido pelo interesse
e por um irresistível impulso interior de criar minha própria
linguagem, síntese de minhas experiências auditivas
e intelectuais organizadas por um conceito composicional o mais
rigoroso possível. Quanto à minha linguagem, prefiro-a,
se for o caso, que seja impura mas viva do que absolutamente pura
e morta. Quero tornar vivas minhas visões, meus sonhos
e mesmo meus pesadelos, tornando-os compreensíveis se eu
mesmo acreditar que valem a pena ser expressos e possuem energia
e emoção para tornar melhor a vida de quem os apreender.
Minha estética, portanto, é a de comunicar esta
energia."
M. Nobre, no site do compositor
22 de dezembro
de 2006
Máxima do dia:
"O instrumento é o principal obstáculo entre
o intérprete e a música."
M. Tricô
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